Entrevista com Maurício Ferreira Chaves
Entrevista com Maurício Ferreira Chaves
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Entrevista com Maurício Ferreira Chaves

Edição 52
ISSN: 2357/7428
Maio/2025
10 min

Presidente da Academia de Ciências Contábeis do Estado do Rio de Janeiro (ACCERJ)

Quais têm sido os principais desafios e conquistas da sua gestão à frente da Academia de Ciências Contábeis do Estado do Rio de Janeiro? 

Em primeiro lugar, registro minha gratidão à Abracicon, representada por sua dinâmica e visionária presidente, Maria Clara Cavalcante Bugarim, pela oportunidade concedida à Academia de integrar mais uma edição da revista Abracicon Saber. A ACCERJ foi fundada em 23 de julho de 1965, com o nome de Academia Fluminense de Ciências Contábeis. 

Após a fusão dos Estados da Guanabara e do Rio de Janeiro, em 1975, passou a se chamar Academia de Ciências Contábeis do Estado do Rio de Janeiro. Atualmente, a ACCERJ conta com 28 cadeiras ocupadas e 22 vagas disponíveis. O Estado do Rio de Janeiro possui 92 municípios e, segundo dados de 2024 do Conselho Federal de Contabilidade (CFC), são 38.351 contadores e 14.658 técnicos em contabilidade registrados. 

Mesmo com esse número expressivo de profissionais, identificar aqueles que possuem o espírito acadêmico é um desafio contínuo. Nosso maior compromisso tem sido manter viva a história da Academia e atrair novos acadêmicos que estejam verdadeiramente dispostos a inspirar futuras gerações, incentivando o estudo, a pesquisa e o amor pela Ciência Contábil. Mais do que ocupar cadeiras, buscamos corações dispostos a compartilhar conhecimento e cultivar um legado. 

Sua trajetória inclui experiência como professor em diversas disciplinas e atuação no setor público e privado. Como essas vivências contribuem para os projetos e o fortalecimento da classe contábil no estado? 

Meu encantamento pela Academia nasceu na sala de aula. Em 2013, enquanto lecionava em uma faculdade do interior do Estado, recebi a visita da então presidente do CRCRJ, Diva Gesualdi, e da confreira Maria Alípia Maia, ambas acadêmicas veteranas da ACCERJ. Naquele momento, ainda desconhecia o funcionamento da instituição. Em 2019, levei alunos de quatro faculdades para o 1º Encontro de Estudantes e Jovens Lideranças de Ciências Contábeis do RJ – Construindo o Futuro, com a participação de quase 2.000 profissionais e estudantes. Esse encontro foi promovido pela ACCERJ em parceria com o CRCRJ. 

Aquele evento foi transformador. Percebi com clareza o impacto da Contabilidade na vida das pessoas. A partir dali, estreitei os laços com a Academia. Tomei posse como acadêmico em 12 de novembro de 2021 e passei a contribuir ativamente em assembleias e eventos. Com mais de 25 anos de atuação na Contabilidade e uma jornada marcada pelo ensino superior, aprendi a olhar para os números com empatia. Cada balanço esconde uma história; cada demonstração contábil revela decisões humanas. 

A Contabilidade é feita por pessoas e para pessoas, e essa consciência molda minha gestão na ACCERJ. Tudo o que vivi até hoje contribuiu para meu amadurecimento, ajudando-me a entender até onde vai minha responsabilidade. 

Aprendi a ouvir e a reconhecer o momento certo de me posicionar de forma assertiva. Procuro manter o diálogo com as demais entidades contábeis, tendo clareza do meu papel como representante da Academia. Nosso objetivo é fortalecer a classe contábil no Estado. 

Considerando o avanço tecnológico e as discussões sobre sustentabilidade, como a ACCERJ tem promovido o engajamento dos profissionais fluminenses nessas temáticas? 

A ACCERJ tem se empenhado em abrir espaço para reflexões sobre os impactos da transformação digital e os compromissos com a sustentabilidade no contexto da Ciência Contábil.

Por meio de eventos, palestras, seminários e publicações especializadas, buscamos incentivar os profissionais da área a se atualizarem quanto às tendências tecnológicas e à adoção de práticas conscientes, que conciliem excelência técnica com ética e responsabilidade social. Essas temáticas são fundamentais para o futuro da profissão e demandam da nossa categoria um olhar mais amplo, crítico e sensível. 

A Contabilidade tem um papel estratégico, não apenas no registro e controle patrimonial, mas também na geração de dados que orientam decisões sustentáveis nas esferas pública e privada. 

Por isso, a ACCERJ tem se posicionado como uma instituição propositiva, comprometida com os desafios contemporâneos que cercam a profissão contábil. Frente às profundas transformações digitais — como o uso de inteligência artificial, blockchain, análise de dados, automação de processos e novos modelos de relatórios contábeis — é essencial que o profissional da contabilidade esteja capacitado para atuar com segurança, responsabilidade e visão estratégica. Do mesmo modo, a agenda da sustentabilidade exige que ele compreenda o valor das informações ambientais, sociais e de governança (ESG), tornando-se um agente de impacto positivo. 

Nesse sentido, a ACCERJ vem fortalecendo parcerias com instituições de ensino, conselhos profissionais e demais entidades da área contábil, promovendo conteúdos e debates que estimulem esse olhar ampliado e integrador. Buscamos fomentar práticas que alinhem o saber técnico à valorização da vida, da comunidade e do planeta, com vistas a uma atuação mais ética, transparente e transformadora. Além disso, temos investido em iniciativas voltadas aos jovens contadores e estudantes, despertando neles a consciência sobre seu papel na construção de uma profissão mais humanizada e preparada para os desafios globais. 

Acreditamos que sensibilizar os futuros profissionais é contribuir com um amanhã mais justo, inclusivo e comprometido com o bem coletivo — e essa missão está entre os pilares que sustentam nossa atuação institucional. 

Qual a importância do incentivo à produção intelectual para a valorização da Ciência Contábil, e de que forma a ACCERJ vem atuando para fomentar essa vertente entre os acadêmicos e profissionais? 

A produção intelectual é essencial para a valorização da Ciência Contábil. Por meio dela, registramos experiências, pensamentos e aprendizados que servirão como legado para as futuras gerações. Sabemos que o mundo muda diariamente, mas o conhecimento permanece como um bem duradouro — algo que ninguém pode tirar de quem está disposto a aprender. 

A ACCERJ tem orgulho de seus acadêmicos que publicam livros, artigos e periódicos. Destaco nomes como Adolfo Coutinho, Antônio Ranha, Ril Moura, Waldir Ladeira e José Paulo Cosenza, entre outros, que contribuem significativamente para o enriquecimento do nosso acervo intelectual. 

Se olharmos para o passado, encontraremos acadêmicos que deixaram legados memoráveis, como o contador Ivo Malhães de Oliveira, presidente fundador da Abracicon, e o professor doutor Américo Matheus Florentino, que produziu extensa obra voltada para análise de custos, contabilidade e auditoria. Cada acadêmico da ACCERJ exerce um papel fundamental na valorização da Ciência Contábil. 

Todos contribuem por meio de condutas éticas — seja como empresários contábeis, professores ou servidores públicos — respeitando as normas da profissão e incentivando as novas gerações de profissionais. Recentemente, nossa acadêmica Daniely Polido representou a ACCERJ, em Brasília, durante o Workshop das Diretrizes Nacionais do Curso de Ciências Contábeis. Como instituição, buscamos participar ativamente das iniciativas promovidas pelo Sistema CFC/CRCs, respeitando os princípios e particularidades de cada entidade e fortalecendo coletivamente à Ciência Contábil. 

Como você avalia o papel das Academias Estaduais na articulação com instituições de ensino, Conselhos Regionais e demais entidades para o fortalecimento da memória e da evolução da Contabilidade no Brasil? 

As Academias Estaduais desempenham um papel essencial na articulação com instituições de ensino, conselhos regionais e demais entidades contábeis. Vivemos em um país continental, com enorme diversidade de perfis profissionais e métodos de gestão. 

Justamente por isso, é necessário termos um olhar acadêmico capaz de propor debates relevantes sobre legislação, normas e práticas que impactam diretamente à profissão contábil. Nosso papel é preservar a memória, fomentar o conhecimento e, sobretudo, construir pontes que conectem passado, presente e futuro. 

A Contabilidade evolui com o tempo, mas permanece como alicerce para decisões que afetam vidas, empresas e instituições.

Maurício Ferreira Chaves é contador formado pela Universidade Federal Fluminense (UFF), possui pós-graduação em Gestão Pública Municipal e Administração Pública pela mesma instituição, além de formação em Empreendedorismo e Inovação. É mestre em Ciência da Educação pela Universidad Interamericana (Paraguai). Com sólida experiência como professor universitário, lecionou disciplinas como Contabilidade Pública, Contabilidade Tributária, Perícia Contábil, Governança Corporativa, Contabilidade Internacional, Controladoria e Contabilidade Ambiental em instituições do Estado do Rio de Janeiro. Preside a ACCERJ e atua também nas Comissões de Turismo e Integração do CRCRJ. Com passagem pelos setores público e privado, é contador na empresa Conte Comigo Contabilidade. Sua trajetória é marcada pelo compromisso com o ensino, a formação de novos profissionais e a valorização da contabilidade como instrumento transformador da sociedade.