O futuro das nações passa pela contabilidade: primeiro dia do Summit em Lisboa debate segurança jurídica e inovação

Encontro internacional no ISCTE reúne ministros, especialistas e líderes acadêmicos nesta segunda-feira (30). Na abertura, a presidente da Abracicon, Maria Clara Bugarin, destacou a conexão histórica e profissional entre Brasil e Portugal.

Lisboa – A capital portuguesa abriu suas portas nesta segunda-feira (30) para o primeiro dia do Summit de Inovação e Desenvolvimento Socioeconômico. Sediado no Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE), o evento transformou a cidade no epicentro global das discussões sobre o futuro dos negócios e da gestão pública. O foco principal? Como a ciência contábil dita os rumos dos investimentos, da infraestrutura e da sustentabilidade.

A mesa de abertura deu a dimensão do peso institucional do encontro. A reitora do ISCTE, Helena Carreiras, deu as boas-vindas destacando o papel fundamental das universidades em articulação com o setor público e empresas para criar agendas conjuntas. Em seguida, o embaixador do Brasil em Portugal, Raimundo Carreiro, celebrou a oportunidade de promover diálogos estratégicos em uma relação bilateral em que, segundo ele, o oceano Atlântico serve apenas como a “ponte que nos une”.

A Voz da Abracicon: Contabilidade Sem Fronteiras

Um dos momentos mais fortes e aplaudidos da cerimônia de abertura foi o discurso da presidente da Academia Brasileira de Ciências Contábeis (Abracicon), Maria Clara Bugarin. Destacando a conexão profunda entre os dois países, ela ressaltou que Brasil e Portugal estão ligados não apenas pela cultura e pelo idioma, mas pela “grandeza e importância da universal e honrosa linguagem contábil”.

Fazendo referência ao saudoso professor Antônio Lopes de Sá, Maria Clara cravou o lema que tem norteado as relações da classe: “Separados pelo Atlântico; unidos pela Contabilidade”.

Em sua fala, a presidente da Abracicon posicionou a profissão como a espinha dorsal para o desenvolvimento seguro das nações. “Entendo que o enfoque maior se volta à nossa Contabilidade como um grande pilar das decisões econômicas e institucionais, alicerce de confiança que sustenta as relações entre mercado, setor público e sociedade”, pontuou.

Maria Clara também alertou para os desafios contemporâneos — como a reforma tributária no Brasil e a economia digital —, encerrando com uma mensagem que deu o tom do dia: “Porque, mais do que números, lidamos com confiança. Mais do que relatórios, construímos futuro”.

Confiança Institucional e a Segurança dos Negócios

A necessidade de segurança jurídica permeou toda a manhã. Joaquim Bezerra, presidente do Conselho Federal de Contabilidade (CFC), foi categórico ao elevar o patamar da profissão: “A contabilidade está, como toda a ciência, em constante evolução (…). Ela se transforma na verdadeira infraestrutura do desenvolvimento das nações, na verdadeira linguagem da confiança”.

Essa visão foi chancelada pelas mais altas cortes brasileiras. O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, proferiu uma reflexão profunda sobre o tema. Segundo o ministro, “a confiança pública é o alicerce sobre o qual se erguem todas as instituições de uma democracia constitucional”. Ele ressaltou que a contabilidade e a auditoria garantem um selo de segurança essencial para a previsibilidade das regras do jogo, condição básica para atrair investimentos.

Trazendo a discussão para a prática da gestão pública, Benjamin Zymler, Ministro do TCU e Coordenador Acadêmico da FGV Justiça, alertou que a enorme dificuldade do Brasil com os registros contábeis prejudica diretamente o planejamento de políticas sociais e de infraestrutura. Já Luis Felipe Salomão, Vice-Presidente do STJ e também Coordenador da FGV Justiça, relembrou de forma poética que o poeta Fernando Pessoa, em seu heterônimo Bernardo Soares, era na verdade um contador, ilustrando a presença vital da profissão no dia a dia.

A Programação do Dia: De IA a Saneamento

Após a abertura oficial, a programação desta segunda-feira mergulhou em painéis técnicos de alta complexidade.

No painel sobre “Economia de Dados e Inteligência Artificial”, moderado por Aécio Prado — Presidente da União dos Contabilistas e Auditores de Língua Portuguesa (UCALP) e da Fundação Brasileira de Contabilidade (FBC) —, o debate focou na transição dos ativos tangíveis para os intangíveis. Luiz Osiliero, especialista da Deloitte, trouxe uma perspectiva tranquilizadora sobre a automação: o acesso massivo a dados através da IA permitirá que o auditor foque seu tempo em “exercer mais julgamento profissional e mais ceticismo profissional”, agregando valor real à governança das empresas.

Durante a tarde, o painel de “Energias Renováveis, Inovação e Sustentabilidade”, coordenado por Ricardo Simonsen (Diretor da Central de Qualidade da FGV), tratou da urgência climática. O Senador Laercio Oliveira resumiu o desafio financeiro da transição energética: “Sem informação confiável, não há investimento”. Ele destacou que a contabilidade traduz contratos complexos em previsibilidade financeira, o que reduz o risco percebido e o custo de capital.

Ainda na pauta ambiental, a infraestrutura tecnológica ganhou protagonismo no painel “Data Centers Verde e Sustentabilidade”. A mesa foi moderada por Zulmir Breda, ex-presidente do CFC e Acadêmico da Abracicon, reforçando a forte presença da Academia na vanguarda do evento. O debate evidenciou o papel da análise contábil e financeira nos arrendamentos, nas matrizes energéticas e no controle de emissões para garantir uma infraestrutura digital verdadeiramente sustentável.

Encerrando as discussões deste primeiro dia, o painel de Infraestrutura jogou luz sobre os gargalos do país. O Ministro Vital do Rêgo, presidente do TCU, destacou a recém-criada secretaria de soluções consensuais da Corte de Contas, uma mudança de paradigma que busca destravar as mais de 11 mil obras inacabadas no Brasil através da mediação, abandonando a visão puramente punitiva.

O consenso deste primeiro dia intenso de Summit foi perfeitamente resumido pela conselheira Thaís Xavier Ferreira Da Costa, do Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso do Sul (TCE-MS). Ao discutir os massivos investimentos e as métricas do setor, ela lembrou a todos o propósito final de toda a regulação, controle e gestão contábil: “Falar de saneamento básico é, em última análise, falar de dignidade humana”.

A programação do Summit de Inovação e Desenvolvimento Socioeconômico segue nesta terça-feira (31) com novos debates sobre os desafios da economia global.